Modelos com deficiência visual fazem desfile
Encontro promove oficinas de estilo e um desfile de modas com audiodescrição, para deficientes visuais
Ao provar uma roupa em uma loja, é comum ouvir do vendedor que a peça está perfeita, quando basta uma olhada rápida no espelho para saber que o caimento ficou péssimo. Mas o que fazer quando não se enxerga? Este é um dilema vivenciado por muitos deficientes visuais ao comprar roupas. O mercado da moda para essas pessoas é o tema do 1º Encontro Estilo, Elegância e Equilíbrio que acontece quinta (1º), na Unidade Vila Mariana da Faculdade FMU, em São Paulo, e conta com palestras, cursos rápidos de como maquiar-se ou montar boas combinações de roupas sem precisar da visão e até um desfile de moda com audiodescrição.
“A aparência é uma parte importante da vida em sociedade, e vestir-se bem é um prazer, mesmo para deficientes visuais”, afirma a advogada Thays Martinez, presidente do Instituto Íris, voltado para a responsabilidade e a inclusão social. Thays, que perdeu a visão aos quatro anos de idade, conta que não é raro enfrentar dificuldades ao comprar roupas. “Se vou com mais alguém à loja, geralmente o vendedor se volta para a pessoa e pergunta o que eu preciso, como se eu não fosse capaz de escolher.”
Por isso, a advogada costuma optar apenas pela companhia de seu cão-guia Diesel quando vai às compras. Vaidosa e elegante, Thays raramente tem em mente uma peça específica para comprar, e costuma dizer, para o desespero dos vendedores, que quer “ver” o que eles têm. Para isso, ela conta com o tato, que a auxilia a descobrir os tecidos e o corte das roupas, mas precisa da descrição dos vendedores para saber as cores das peças e montar boas combinações. “O problema é que, muitas vezes, os vendedores nunca descreveram uma roupa para um deficiente visual, e usam termos como ‘verde pistache’, que não fazem o menor sentido para mim”, diz Thays.
Etiqueta em braille
Descrever roupas de modo que o ouvinte possa imaginá-las mentalmente exige treino e sensibilidade. Lívia Mota, especialista em audiodescrição, entende do assunto. Acostumada a descrever peças de teatro, óperas e exposições, Lívia sentiu certa insegurança ao ser convidada para narrar o desfile de modas que acontece na quinta-feira, às 16h, e exibe roupas da marca C&A. “Sempre gostei de moda, mas não conhecia alguns jargões”, conta. Para transmiti-los aos deficientes com precisão, a especialista descreve não só as roupas, mas as características físicas dos modelos, o cenário e o caimento das vestimentas. “Muitas vezes, vejo um desfile e penso que preciso comprar roupas com aquelas novas tendências. Quero que as deficientes visuais possam ter essa sensação também”, diz Lívia.
Três das modelos que farão parte do desfile são deficientes visuais, caso de Ana Cláudia Domigues, que sonhava com as passarelas quando era jovem. O tempo passou e Ana nunca imaginou que teria essa profissão após perder a visão em decorrência de uma retinose pigmentar, doença degenerativa que ataca a visão. “Após deixar de enxergar, me senti muito mal por não poder mais me maquiar e me vestir como antes”, conta. Para ajudá-la, seu marido, Carlos Eduardo, fez um curso de maquiagem. A filha do casal, Ana Beatriz, de seis anos, ajuda também a mãe, com conselhos sobre a escolha das roupas. Para ter autonomia ao se vestir, Ana organiza o seu guarda-roupas em uma escala cromática, partindo das peças mais claras e básicas, até as escuras. Algumas roupas estampadas ou de difícil combinação levam uma etiqueta em braille, com sua descrição.
Atenciosamente
Escola de Cães Guia Helen Keller
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